No L’Osservatore Romano, a teóloga Marinella Perroni insta o Papa Francisco a superar o estereótipo da mulher

Marinella Perroni (Foto: Reprodução YouTube)

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15 Dezembro 2022

Os últimos papas usaram os conceitos de “princípio petrino” e “princípio mariano” para descrever o importante papel que mulheres e homens desempenham juntos na Igreja Católica, mas uma teóloga biblista, escrevendo no L'Osservatore Romano, jornal do Vaticano, disse que é hora de falar sobre as noções discriminatórias e estereotipadas que estão por trás disso.

“O princípio mariano-petrino não expressa uma ideologia e uma retórica de diferenciação sexual e de gênero que agora foi exposta como uma das coberturas dos privilégios patriarcais?”, esse é o questionamento de Marinella Perroni, professora aposentada de teologia bíblica no Pontifício Ateneu de Sant'Anselmo, em Roma.

A reportagem é de Cindy Wooden, publicada por National Catholic Reporter, 13-12-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Seu artigo de 12 de dezembro, publicado por L'Osservatore Romano, o jornal do Vaticano, foi uma resposta ao uso mais recente do princípio dual pelo Papa Francisco em uma entrevista à revista America, dos jesuítas estadunidenses, no final de novembro.

Como fez com frequência quando questionado sobre o papel das mulheres na Igreja e a possibilidade de ordenar diáconas ou sacerdotisas, Francisco insistiu que “o princípio mariano, que é o princípio da feminilidade na Igreja, da mulher na Igreja, onde a Igreja vê um espelho de si mesma porque é mulher e esposa” é mais importante do que o princípio petrino, que se refere ao ministério ordenado na sucessão de São Pedro e dos apóstolos.

“A Igreja é mais do que um ministério. É todo o povo de Deus. A Igreja é mulher. A Igreja é uma esposa. Portanto, a dignidade da mulher é espelhada desta forma”, disse o papa à America. “Por que uma mulher não pode entrar no ministério ordenado? É porque o princípio petrino não tem lugar para isso. Sim, é preciso estar no princípio mariano, que é mais importante”.

Perroni disse que o princípio Petrino-Mariano foi formulado pela primeira vez pelo teólogo suíço Hans Urs von Balthasar na década de 1970 para combater um sentimento “anti-romano” entre alguns católicos e insistir que a estrutura hierárquica da Igreja e sua comunidade viva de crentes chamados à santidade e a trazer Cristo ao mundo devem andar juntas.

Os papas Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco usaram o princípio “para falar sobre a vida da Igreja e, acima de tudo, sobre a participação nela de mulheres e homens”, escreve Perroni.

Na fórmula, explica, “é imediatamente intuído que Maria é o protótipo do feminino e Pedro é o protótipo do masculino, e é claro que quando os papas usam a fórmula do ‘princípio mariano-petrino’, eles querem afirmar que todos, mulheres e homens, devem se sentir em casa na Igreja porque é um lugar onde a relação entre masculino e feminino é de estreita reciprocidade”.

“No início do terceiro milênio, porém, uma reciprocidade que atribui às mulheres o carisma do amor e aos homens o exercício da autoridade deveria pelo menos nos fazer hesitar”, escreveu ela.

Perroni citou o documento Marialis Cultus, do Papa Paulo VI, de 1974, sobre a devoção mariana, onde explicava que, com Maria, Deus “colocou na sua família, a Igreja, como em cada casa, a figura de uma mulher que, escondida e com espírito de serviço, vela sobre aquela família e cuidadosamente cuida dela até o dia glorioso do Senhor”.

Os papas, incluindo Francisco, insistiram que o princípio mariano e o papel feminino na Igreja são mais importantes do que o papel ministerial e autoritário de São Pedro e seus sucessores, mesmo que o princípio mariano caracterize o papel das mulheres como “materna” e “doméstica”, critica Perroni.

Reconhecendo que a Igreja precisa de uma “teologia das mulheres” mais profunda, ela afirma: “Francisco luta para se libertar da visão patriarcal que reserva autoridade aos homens e amor às mulheres”.

Usar o binário princípio petrino e mariano é “sedutor” porque é simples, disse Perroni.

Mas é problemático porque estereotipa as diferenças entre homens e mulheres e lhes dá um valor hierárquico, disse ela. O feminino é apresentado como doméstico, interior, acolhedor e espiritual, enquanto o masculino é apresentado como ministerial, autoritário e poderoso.

No entanto, escreveu Perroni, é “bastante claro que as formas de exaltação mística do feminino são diretamente proporcionais à recusa do reconhecimento público da autoridade das mulheres”.

“O binarismo masculino-feminino”, disse ela, apareceu “obsessivamente” na teologia católica quando era “totalmente androcêntrica e patriarcal”, mas perdeu credibilidade “desde que as mulheres primeiro se tornaram a ‘questão feminina’ e depois, tendo se livrado dessa expressão ofensiva, tornaram-se protagonistas plenos da vida social, política e eclesial”.

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